sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A primavera secundarista em retrospectiva


No final de 2015, o governo estadual de São Paulo declarou que iria começar um processo de realocação de estudantes e de fechamento de mais de 90 escolas. Na época, eu, mulher negra com 18 anos no 3º ano do ensino médio, morava no Jd. Jaqueline, periferia da zona oeste de São Paulo, e saia de casa todos os dias duas horas antes do horário de início da aula para conseguir me deslocar até a Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, a tempo de assistir a aula. Pessoalmente, essa decisão do governo faria com que eu tivesse que voltar a estudar nas escolas do meu bairro, que se assemelhavam mais com uma cova onde descansavam as esperanças dos estudantes da periferia de um dia entrarem na faculdade. Perspectiva de continuidade dos estudos: zero.

Em pouco tempo se iniciaram as manifestações de rua, houve muita repressão, bombas de gás, prisão de estudantes, cassetetes descontrolados atingindo o corpo daqueles e daquelas que ousavam fazer frente ao governo Alckmin. A possibilidade de diálogo e renúncia dessa decisão parecia um doce sonho distante. Já não era mais suficiente tomar as ruas e seguir as formas tradicionalmente conhecidas dos protestos e manifestações, pois estas não estavam fazendo surgir o efeito desejado. Foi quando a cartilha “Como ocupar seu colégio?” de estudantes secundaristas da Argentina e Chile, e o conhecimento sobre “A revolta dos pinguins” trouxe à luz outras possibilidades de ação.

O que se sucedeu foi denominado como “primavera secundarista”, com ocupações que se alastraram por escolas de todo o país, que logo passou a se tratar não só de uma oposição às decisões do governo, mas também aos desvios de verbas das merendas das escolas e pela necessidade de investimento nas estruturas, nos salários dos(as) professores(as) e de uma maior autonomia estudantil em relação às decisões que envolvem o sistema educacional como um todo. A organização interna nas ocupações seguia uma linha contra lideranças, se prezava muito pela horizontalidade, todas as decisões eram tomadas em assembleia, havia comissões (segurança, limpeza, mídia etc.) para que todos e todas pudessem contribuir igualmente durante todo processo. Além disso, a coragem dos secundaristas que constituíam a linha de frente durante os atos foi outra característica marcante, que acabou por contribuir significativamente para a diferenciação da forma de militância desses estudantes do ensino médio, que se assemelhavam a uma linha de atuação autonomista.

Após tentativas fracassadas de forçar os estudantes a desocuparem as escolas por meio de táticas como corte energia elétrica, água, gás, além das constantes ameaças de reintegração dos prédios pela Polícia Militar, a resistência do então governador acabou por ceder, assim como sua popularidade. Mesmo com a continuidade das ocupações por motivos que perpassavam a revogação das propostas que incitaram o movimento, Alckmin acabou por dar o braço a torcer e voltou atrás com suas propostas. Vitória do movimento secundarista.

Pouco tempo se passou desde o florescer da primavera secundarista e, como saldo, as ocupações acabaram sendo uma escola política de formação dos(as) jovens que dela participaram. É possível afirmar que grande parte destes e destas, no contexto pósocupações, continuou a ser influenciada por essa linha autonomista que caracterizou o movimento, se mantendo descrente em relação aos partidos políticos e apostando em outras formas de atuação mais horizontais. Mesmo as pessoas que adentraram as universidades acabaram por se distanciar da forma de militância do movimento estudantil universitário que é muito vinculado à estrutura política partidária, mas mantiveram a sua atuação mantendo a linha autônoma de luta e não deixaram de se mobilizar.

No contexto atual, os desafios mudaram em parte. O homem que plantou a semente contra a qual desabrochou uma luta mobilizada e organizada dos estudantes de ensino médio, agora distribui conselhos de saúde e bem-estar ocasionalmente em programas da TV aberta. Mas os ataques à educação pública continuam, especialmente voltados às universidades e institutos. Em retrospectiva, a primavera secundarista é o exemplo de uma luta que obteve sucesso no que se propôs e deixa como inspiração a vontade latente de que mais primaveras, sejam elas secundaristas ou universitárias, venham a florescer ao longo desse caminho, por vezes espinhoso, da luta pela educação.

SOFIA TOLEDO
É ESTAGIÁRIA DO PROJETO RECONEXÃO PERIFERIAS. PARTICIPA DA EQUIPE DA PESQUISA “CHACINAS E A POLITIZAÇÃO DAS MORTES NO BRASIL”. ESTUDA CIÊNCIAS SOCIAIS NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.


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