No final de 2015, o governo estadual de São Paulo declarou que iria começar um processo de realocação de estudantes e de fechamento de mais de 90 escolas. Na época, eu, mulher negra com 18 anos no 3º ano do ensino médio, morava no Jd. Jaqueline, periferia da zona oeste de São Paulo, e saia de casa todos os dias duas horas antes do horário de início da aula para conseguir me deslocar até a Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, a tempo de assistir a aula. Pessoalmente, essa decisão do governo faria com que eu tivesse que voltar a estudar nas escolas do meu bairro, que se assemelhavam mais com uma cova onde descansavam as esperanças dos estudantes da periferia de um dia entrarem na faculdade. Perspectiva de continuidade dos estudos: zero.
Em pouco tempo se iniciaram as manifestações de rua, houve
muita repressão, bombas de gás, prisão de estudantes, cassetetes descontrolados
atingindo o corpo daqueles e daquelas que ousavam fazer frente ao governo
Alckmin. A possibilidade de diálogo e renúncia dessa decisão parecia um doce
sonho distante. Já não era mais suficiente tomar as ruas e seguir as formas
tradicionalmente conhecidas dos protestos e manifestações, pois estas não
estavam fazendo surgir o efeito desejado. Foi quando a cartilha “Como ocupar
seu colégio?” de estudantes secundaristas da Argentina e Chile, e o
conhecimento sobre “A revolta dos pinguins” trouxe à luz outras possibilidades
de ação.
O que se sucedeu foi denominado como “primavera
secundarista”, com ocupações que se alastraram por escolas de todo o país, que
logo passou a se tratar não só de uma oposição às decisões do governo, mas
também aos desvios de verbas das merendas das escolas e pela necessidade de
investimento nas estruturas, nos salários dos(as) professores(as) e de uma
maior autonomia estudantil em relação às decisões que envolvem o sistema
educacional como um todo. A organização interna nas ocupações seguia uma linha
contra lideranças, se prezava muito pela horizontalidade, todas as decisões
eram tomadas em assembleia, havia comissões (segurança, limpeza, mídia etc.)
para que todos e todas pudessem contribuir igualmente durante todo processo.
Além disso, a coragem dos secundaristas que constituíam a linha de frente
durante os atos foi outra característica marcante, que acabou por contribuir
significativamente para a diferenciação da forma de militância desses
estudantes do ensino médio, que se assemelhavam a uma linha de atuação
autonomista.
Após tentativas fracassadas de forçar os estudantes a
desocuparem as escolas por meio de táticas como corte energia elétrica, água,
gás, além das constantes ameaças de reintegração dos prédios pela Polícia
Militar, a resistência do então governador acabou por ceder, assim como sua
popularidade. Mesmo com a continuidade das ocupações por motivos que
perpassavam a revogação das propostas que incitaram o movimento, Alckmin acabou
por dar o braço a torcer e voltou atrás com suas propostas. Vitória do
movimento secundarista.
Pouco tempo se passou desde o florescer da primavera
secundarista e, como saldo, as ocupações acabaram sendo uma escola política de
formação dos(as) jovens que dela participaram. É possível afirmar que grande
parte destes e destas, no contexto pósocupações, continuou a ser influenciada
por essa linha autonomista que caracterizou o movimento, se mantendo descrente
em relação aos partidos políticos e apostando em outras formas de atuação mais
horizontais. Mesmo as pessoas que adentraram as universidades acabaram por se
distanciar da forma de militância do movimento estudantil universitário que é
muito vinculado à estrutura política partidária, mas mantiveram a sua atuação
mantendo a linha autônoma de luta e não deixaram de se mobilizar.
No contexto atual, os desafios mudaram em parte. O homem que
plantou a semente contra a qual desabrochou uma luta mobilizada e organizada
dos estudantes de ensino médio, agora distribui conselhos de saúde e bem-estar
ocasionalmente em programas da TV aberta. Mas os ataques à educação pública
continuam, especialmente voltados às universidades e institutos. Em
retrospectiva, a primavera secundarista é o exemplo de uma luta que obteve
sucesso no que se propôs e deixa como inspiração a vontade latente de que mais
primaveras, sejam elas secundaristas ou universitárias, venham a florescer ao
longo desse caminho, por vezes espinhoso, da luta pela educação.
SOFIA TOLEDO
É ESTAGIÁRIA DO PROJETO RECONEXÃO PERIFERIAS. PARTICIPA DA
EQUIPE DA PESQUISA “CHACINAS E A POLITIZAÇÃO DAS MORTES NO BRASIL”. ESTUDA
CIÊNCIAS SOCIAIS NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO.
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