quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O reflexo do machismo na saúde da mulher é o que a faz achar que ‘seu corpo é sujo’

Desde que o fenômeno de expansão da área médica – a medicalização – deu origem à área da ginecologia obstetrícia, o discurso da saúde reproduz as contradições dessa sociedade marcada pelo patriarcalismo. Apoiado nesse entendimento, que sujeita as mulheres a posições inferiores aos homens, a área médica as coloca como um corpo a ser mais fiscalizado e medicado, como observa a professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP Elisabeth Meloni Vieira, especialista em Saúde Pública.

“A mulher é socializada para achar seu corpo sujo. Mas essa não é uma questão da medicina, ela faz parte desse grupo de instituições que vão discriminar a mulher”, destaca.

De acordo com a professora, as medidas para impedir a gravidez carregam conotações políticas. Exemplo disso é quando o controle populacional começa a ser feito com a esterilização involuntária, posteriormente considerada, em 1957, pelo Tratado de Roma, um crime contra a humanidade. Mas a contracepção, ainda que responsabilize unicamente a mulher, ao ganhar força no século 20 não deixou de representar também uma garantia à proteção, o que deu condições para que os direitos sexuais e reprodutivos do corpo feminino pudessem ser debatidos.

“Tem uma série de práticas que são utilizadas sem serem baseadas em evidências, como amarrar as pernas na hora do parto, a tricotomia – raspagem dos pelo, a episiotomia, corte do períneo”, aponta a professora, ressaltando como uma das possíveis formas de violência obstétrica na hora do parto a própria cirurgia cesariana. “A cesárea aumenta os riscos para a mulher e o bebê. Nela, se tem um corpo que não participa do parto, é o médico que arranca de dentro. Será que isso é o melhor para mãe e bebê?”, questiona a professora.

Sociedade que viola o direito ao parto normal

Pelo menos desde o século 19, quando a medicina entrou nessa área, que os partos normais, prática das parteiras, e a cirurgia com a cesárea, estão em disputa. Este último – “um modelo desnecessário”, de acordo com a médica e especialista – não deixa de atender as demandas mercadológicas da área da saúde. “Quem tem dinheiro para pagar um profissional que possa acompanhar 15 horas de parto normal? Mais fácil ele ficar lá duas horas, fazer a cesárea e ir para o seu segundo emprego”, pontua.

Mas a cesárea é, no entanto, a prática mais vigente no Brasil e, no estado de São Paulo, foi posta, em agosto, como garantia para a gestante que optar pela cirurgia. A proposta está estabelecida pelo Projeto de Lei 435/2019, da deputada estadual Janaina Paschoal (PSL), criticado pela professora. “Vivemos em uma sociedade que não dá o direito à mulher ter um bom parto normal. Falta informação”, garante Elisabeth, ressaltando a falta de autocrítica da própria área médica sobre essas violências. “A medicina precisa se enxergar dentro desse contexto social.”

Com informações da Rede Brasil Atual. 

FONTE: https://www.redebrasilatual.com.br/saude-e-ciencia/2019/11/o-reflexo-do-machismo-na-saude-da-mulher-e-o-que-a-faz-achar-que-seu-corpo-e-sujo/

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